quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Miguelito e Aristóteles: um discurso improvável!

Péricles discursando na ágora ateniense.
Miguelito passara dias dentro de um pote, totalmente inerte. Apenas sonhara, sonhos estranhos, sem significados aparentes. Hora tinha patas gigantes, hora sua cabeça era dez vezes maior do que seu corpo. Em outros sonhos devorava maças, era picado por uma cobra. Quando acordou, Miguelito nos contou que estava dentro de caixa com uma tampa de vidro. Ao seu lado, inúmeros insetos de variadas formas e cores. Todos mortos! Seu coração disparou. Como sairia de lá? Nesse momento, um esguio homem abre a tampa para catalogar mais um inseto de sua coleção. Miguelito pensa: é agora ou nunca!
- Ei? Ei? Senhor?
- Ti estin? Você está falando comigo? Impossível! Só os humanos falam. A linguagem é o que nos diferencia de todos os outros seres. Ela nos faz seres racionais e políticos. Só o homem é um zoon politikon (animal político). Então, você é um animal político também?
- Ahh..vejo que o senhor deve ser Aristóteles! Sacanagem daquele baixinho viu! Bom, seguindo a linha de sua “Política” e também de sua “Ética à Nicômaco”, poderíamos dizer que sim.
- Mas eu nem finalizei minhas obras. Como pode ter lido? E quem é você? Ou, o que é você?
(Miguelito pensou: ahh...essa minha boca viu! Como é que eu vou explicar tudo isso agora?).
- Vejo que gosta de classificar tudo, não é? Pois bem, sou Miguelito, o último dos besouros sapiens. E venho de longe, muito longe.
- E como aprendeu a falar? Quem lhe ensinou? Com que finalidade? Para viver na pólis e ser feliz como nós?
- Feliz? A felicidade não existe, só há momentos felizes. E os meus estão cada vez mais escassos. O senhor é feliz porque vive no ócio e não precisa trabalhar. Se vivesse onde eu vivo! É trabalho...trabalho....trabalho....enche o saco viu seu Aristóteles!
- Mas a felicidade é a finalidade nossa existência.
- Então, minha existência não tem finalidade nenhuma. Só levo na cabeça!
- E que cabeça hein rapaz? Ahh...Alexandre escreveu que você veio da Índia, não foi?
- Que Índia o quê. Eu venho de São Miguel Arcanjo.
- E onde fica? É um povo bárbaro?
- Bárbaro? Sensacional. Mas gostam de uma festa, não tem igual no mundo, tudo gente boa seu Aristóteles. Agora, onde fica? Huuumm...ah, ali no Brasil mesmo.
- E vocês vivem numa aristocracia, tirania, oligarquia ou democracia?
- Sinceramente, nem sei mais. Acho que é uma mistura de tudo. Acho que Platão estava certo, estamos descambando numa tirania, porque demagogo é o que não falta lá. Maquiavel estava certo, sempre haverá a quem enganar!
- Esse Maquiavel eu não conheço, mas Platão foi meu mestre. Você gostaria de conhecê-lo?
- Pelos deuses! Ele e Sócrates me deram um vinho, uma tal de cicuta que é de matar!
- Mas cicuta não é um vinho, é um veneno meu caro! Sócrates foi condenado a bebê-lo semana passada! Já partiu para o seu mundo inteligível, junto dos bons, dos sábios e dos heróis.
- Modesto ele não?
- Deixemos Platão e Sócrates. Eu também não concordo com eles.
- Muitos não concordaram com o senhor também.
- Ora, quem?
- O próprio Maquiavel que eu citei anteriormente. O bom político deve ser virtuoso. Não é o que o senhor diz? Ética e política são indissociáveis.
- É evidente. E como poderia ser diferente?
- E se para alcançar um objetivo justo e bom eu precisar agir contra a moral e os bons costumes?
- Como pode ser justo algo que contraria princípios éticos?
- Maquiavel não via problema nisso. Por isso os meios podem ser escusos quando a finalidade é a manutenção do poder e o bem comum.
- E você concorda com Maquiavel?
- Simpatizo bastante com suas ideias. Afinal, o homem é um pérfido, um interesseiro, se vende facilmente, “é capaz de esquecer mais rapidamente a morte do pai do que a perda de um patrimônio”.
- Então, se o povo não se conduz de maneira justa e ética, ao político tudo é permitido?
- Nem tudo. Quando está sob os olhares do povo, faz uma média, simula e dissimula ser o que não é: justo, honesto, fiel, íntegro e, principalmente, religioso!
- Por Atena!
- Seu Aristóteles, da última vez que estive aqui, o seu Péricles tinha me convidado pra fazer um discurso na ágora. O senhor me levaria lá?
 (Aristóteles pensou consigo: esse baixinho irá corromper nossa juventude com ideias tão absurdas. Será ele um sofista? Quase me persuade! Um discurso? Será o fim de Atenas!).
- Miguelito, você ficará em minha casa. Amanhã iremos até a ágora e o levarei até Péricles.
- Um discurso na ágora? Caramba, esse é o século de Péricles, entrarei para a história!
- Agora, vamos comer alguma coisa. Estou faminto!
- Mas vamos com calma seu Aristóteles. Moderação, meio-termo, certo? Se não caímos no vício da gula.
- Muito bem, vejo que me conhece mesmo. E você é moderado? Utiliza minha ética?
- Moderado? Huummmm...acho melhor comermos.
(Após comerem, Aristóteles levou Miguelito para seu “laboratório”. Convenceu Miguelito de que seria melhor ficar com os outros insetos ou então dormiria com os escravos da casa, o que seria perigoso para um ser tão diferente. Após colocá-lo na caixa, se despede).
- Bom, tenha uma ótima noite Miguelito!
- Boa noite seu Aristóteles. E o jantar estava ótimo.....Ei, peraí! Por que esse cadeadão? Medida de segurança? Ah, já sei! Medo de que voe, não é?
- Maquiavel, né? Ética e política são distintas, não é isso? Para manter o poder vale tudo?
- Ei, como vou fazer pra sair daqui? Sacanagem viu!
- Espere seu amigo Maquiavel chegar e pede a chave pra ele. Os fins justificam os meios Miguelito! Acho que aprendi!
Aristóteles (384-322 a.C.)

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