segunda-feira, 1 de agosto de 2011

MIGUELITO: QUEM TEM BOCA VAI A ROMA!

Coliseu de Roma


Miguelito quase morrera com a cicuta não fosse a intervenção de Hipócrates, chamado “o pai da medicina”. Longos meses de recuperação e ele agora nos falava de sua experiência na Roma Antiga, de como conheceu Júlio César, um dos mais influentes imperadores romanos.  Voando pelos arredores do Coliseu, ele ouviu os gritos da multidão enquanto sobrevoa a arena. Imaginando que ali se disputava uma partida de futebol, pensou: o jogo deve ser bom, vou dar uma espiadinha! Enquanto se aproximava, uma lança passa rente sua cabeça e ele, atordoado, cai justamente no colo de Júlio César.
(Miguelito) – Oi. Desculpe senhor! Foi pura distração.
(Júlio César) – O que é isso? Você fala? Quem é você? Um demônio?
- Não senhor. Sou Miguelito e venho de São Miguel Arcanjo.
(Júlio César pensa consigo: será um cristão?)
 – E de que casta você é?
- Sou um besouros sapiens, o último da espécie, minha raça está em extinção.
- E esse São Miguel Arcanjo? Quem é?
- É o príncipe dos arcanjos, o líder dos mensageiros. Onde vivo, tem até uma igreja em sua homenagem!
(Júlio César pensa novamente: na mosca, ou melhor, no besouro, é um cristão!).
- Miguelito, você é meu convidado de honra. Súdito? O melhor vinho, a melhor toga para meu amigo Miguelito. Sei que ele não é Romano, mas como imperador vou quebrar o protocolo. Ei meninas? Façam companhia para meu amigo Miguelito.
(Miguelito abre um sorriso. Até aquele momento só passara privações e situações incômodas, quase a morte. Pensou: finalmente um alento!)
- Obrigado senhor Júlio César. Nunca tive uma recepção como essa! Os romanos são muito gentis. Mil vezes mais que os gregos. O senhor os conhece?
- Claro, nós os conquistamos. Mas eles perderam a guerra e ganharam o mundo através de nós. Não somos filósofos Miguelito, somos conquistadores.
- E já ganharam algum título? Um mundial?
- Nós somos o mundo agora Miguelito!
(Miguelito disfarça e pensa: convencido! O coringão também tem um mundial!).
- Nossa...esse jogo é interessante. Vocês usam charretes?
- Charrete?  Aqui dizemos biga. Mas a parte melhor vem agora. A luta entre os gladiadores...... depois os leões.
- Eu sei o que é um gladiador. No meu mundo temos UFC, é praticamente a mesma coisa, “Panis et Circenses!”.
- Vejo que seus líderes também seguem nossa política. E alguém morre nesse UFC?
- O juiz não permite. Essa é a parte chata. Vocês tem juízes aqui?
- Normalmente sou eu. Mas antes consulto a multidão.
- É agora! Desculpe, preciso me levantar. Só observe Miguelito!
(Miguelito observa Júlio César estender os braços, colocar o polegar em sentido horizontal aguardando a multidão).
(Em uníssono) – Morte...morte....morte!
(E o polegar move-se vagarosamente para baixo. Um gladiador é arrastando deixando atrás de si um rastro de sangue).
Miguelito arregala seus pequenos olhos, estupefato com uma sena que ele só tinha visto nos filmes de Hollywood.
- Agora os leões Miguelito! O povo adora a crueldade!
- Nietzsche já dizia seu Júlio: “A crueldade é a alegria festiva mais antiga da humanidade!”, "Onde há castigo, há festa!".

(A multidão delira numa catarse! Um mensageiro baixo e magro se aproxima e fala aos ouvidos do imperador).
- Ave César! Infelizmente, não capturamos nenhum cristão. Desconfiamos que cavaram novas catacumbas.
- Nenhum? Incompetentes! E não tentaram um suborno? Não perguntaram a ninguém onde eles se esconderam?
(Miguelito ouvindo a conversa se intromete e fala ao mensageiro de Júlio César)
- Vocês não perguntaram? Quem tem boca VAI A ROMA meu amigo!
(Júlio César, possesso por tamanha infâmia, se levanta e dirige-se a Miguelito em tom ameaçador).
- Quem VAIA Roma meu caro besouro? Quem?
- Todo mundo que tem boca VAI A ROMA seu Júlio.
- Você VAIA Roma?
- Ora, já estou aqui. Nem preciso mais.
(Júlio César furioso anda de um lado para o outro esfregando as mãos compulsivamente. Pouco depois se dirige à multidão).
- Romanos! Romanos! (Faz-se um silêncio de morte). Nossos soldados não capturaram nenhum cristão para matar a fome de nossos leões. (A multidão reclama, chia). Acalmem-se! Sabem que eu descendo de Vênus e ela nunca abandona seus filhos. Tenho ao meu lado um cristão e que, por sinal, tem o hábito de nos vaiar. E por isso ele se ofereceu em sacrifício, para se redimir perante nosso povo. Seu nome é Miguelito!
(a multidão em uníssono). Eeeeeeeeeeee....Miguelito, Miguelito, Miguelito!
(Miguelito se apavora)
- Eu? Cristão? Sacrifício? Como assim?  Eu nunca VAIEI Roma seu Júlio! Acho que há um equívoco aqui! Eu disse VAI A ROMA, VAI A ROMA....
- Guardas? Prendam-no e jogue-no para os leões.
- Ei...porque essas correntes seu guarda? Ai meu braço, quer dizer minhas patas! Peraí pô!! Ei, alguém aqui da tribuna é professor de Português? Pelos menos entende minha língua? Calma gente! Pra que a pressa?

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