quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Dia do Saci

Não vou entrar em discussões étnicas ou raciais.
Muito menos questões preconceituosas presentes na lenda do menino negro de uma perna só.
Quero falar da irreverência que o personagem desperta.
De sua destreza e velocidade com que foge dos homens de bem!
De sua ousadia em chafurdar exatamente a espécie animal mais admirada pelos homens: os cavalos!
Os gregos chegavam a plagiar  as virtudes do cavalo: força, habilidade, velocidade, pureza, autodomínio!
Guerreiros e heróis mitológicos tinham seus fiéis protetores!
E o centauro Quíron? Sábio como homem, forte como cavalo!
E Pegasus e suas asas! Não há imagem mais inebriante.
Quê dizer de Calígula? Apaixonado pela própria irmã, venerava seu Incitatus.
Calma! Não se precipite. Incitatus era seu adorável cavalo.
E por que ralhos falar de tanto cavalos se começamos com o Saci?
Porque o Saci desdenharia e infernizaria a vida de todos eles.
Guerreiros declarariam guerra ao Saci.
Heróis invocariam a ira dos deuses.
Imperadores colocariam sua cabeça a prêmio.
E o menino de gorro vermelho?
Estaria rindo de todos eles.
Por isso ele é meu herói.
Por que "em terra de Saci, qualquer chute é voadora" e "uma calça dá pra duas pessoas".

domingo, 27 de outubro de 2013

O que é o humano?

Essa semana fui surpreendido. Uma aluna, que por sinal parece gostar bastante de filosofia, me perguntou: professor, para você o que é o humano?
Pensei: por que não me perguntou o que é o humano para Nietzsche, para Sartre ou para Descartes?
Lembrei do "Humano, demasiado humano" de Nietzsche. Mas não poderia plagiá-lo. Estaria "vivendo em glória de empréstimo" como diz o próprio Nietzsche.
Lembrei-me da náusea sartreana diante do absurdo que é a vida e sua falta de sentido. Do quanto essa falta de sentido acabou por gerar inúmeros sentidos para um além-mundo, já que este não se justifica de forma alguma. Talvez por isso as religiões tenham vencido a filosofia e a ciência, como diz Lacan.
Suas promessas são inalcançáveis para qualquer regra lógica ou para qualquer possibilidade de comprovação empírica. Daí seu poder de sedução.
Lembrei também do cogito cartesiano e seu "Eu penso, eu existo", daí o humano estar profundamente atrelado ao que chamamos de razão. Mas a razão é uma invenção da filosofia, portanto também passível de refutação, pois pode ter sido inventado por alguém bastante "feio", como Sócrates.
Bom, se o humano não é razão, é instinto, é desejo, é paixão. Mas não foi Freud que teria nos alertado que  o humano foi subjugado em nome da civilização? Jamais seremos felizes!
Se tudo é absurdo, por ser humano, e se o que é humano já não mais existe para que a civilização
prossiga sua existência sem sentido, então não há o que responder.
Estamos todos perdidos.
Espero que exista um além. E que Nietzsche esteja errado!

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Orgulho besta!

É impressionante as ilusões que criamos sobre nós mesmos.
Sempre quando escrevo algum texto, me salta uma vaidade incontrolável.
Me sinto o máximo, um gênio.
Tenho orgulho de ser quem sou.
Semana passada li duas novelas de Dostoievski: A dócil e O sonho de um homem ridículo.
Esta semana acabei de ler outras duas.
Dessa vez de Tolstói: A morte de Ivan Ilitch e Senhores e servos.
Como uma avalanche me saltaram à memória Saramago com seu Ensaio sobre a cegueira,
Memorial do Convento, A Caverna e o Homem duplicado.
Depois Sartre com sua Idade da Razão, Náusea e O muro.
E para finalizar Nietzsche com sua Genealogia da moral e Assim falou Zaratustra.
Não resisti e ri de mim mesmo.
Que orgulho besta!


quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Memórias da infância!


Casa grande é espaço demais pra quem é pobre!
Apenas um quarto. Ideal quando são quatro. Esquentamos uns aos outros. Cobertor era pouco!
Dia de chuva era uma alegria só. Deitar na rua, procurando cachoeiras em sobrados.
Mas cachoeira mesmo era da casa dos quatro. Nem em supermercado se via tanto balde e tanta panela.
E a disputa pra encher a canequinha com as gotas que caiam do teto? Parecia final de copa. E o prêmio? Beber água de chuva.
Ninguém passava fome, como repete até hoje a mãe. Passávamos vontade. E vontade de tudo!
Pedido do mês era pedido do dia. O pai ficava bravo, mas não batia. Sabia que fome dói mais que cinta.
O pai trabalhava muito e quando chegava em casa, o resto de seu suor os quatro comiam: pipoca! Doce ou salgada, tanto faz. Pipoca também mata fome!
E limoeiro também! "Sal e limão afinam o sangue gurizada" dizia a mãe.
 "Dá nada mãe!" A careta compensava.
Roupa nova era luxo. A mãe, costureira de boa mão, dava jeito pra tudo. E cueca sem elástico não se joga, amarra a ponta. Desde pequeno já sabia customizar!
Corpos eram quatro! E toalha era só uma. Azar do último! Desde se cedo se aprende as regras do jogo da vida. Até irmão fica pra trás.
E carne era só no domingo. Moída. E de segunda! Pra nós era banquete. Com macarrão então, a gente era rico.
E pra beber? Garapa! De cana? Não. Água com açúcar. Dizia a mãe que curava tudo. Até fome!

Hoje não tenho mais fome.
Só saudade. De ser feliz.