quarta-feira, 27 de julho de 2011

ENGANADO POR DESCARTES - PARTE 2

Como é difícil a vida de um pobre professor! Para pagar uma simples garrafa de vinho, que bebemos em menos de uma hora, passei duas com a operadora do cartão de crédito tentando aumentar meu limite e mais duas com o dono do bar tentando convencê-lo a dividir a conta em umas 20 prestações. Ao que ele respondeu: se não tem com o quê, por que bebeu? Sem chororô meu caro!
E para explicar que o senhor Descartes havia pedido o vinho? E que ele deixou nosso mundo em 1650? Além de uns dias na cadeia, passaria mais alguns meses num hospício.
Foi quando a polícia ia já entrando no bar com seus movimentos leves e pacíficos, com palavras extremamente gentis, que apareceu o gentil homem.

- Boa noite! Vejo que há um problema entre os senhores!
(O meu olhar já não era de muitos amigos)
- Imagina Senhor Descartes, não se deixe confiar no que vê! Estamos apenas falando de futebol, aqui é comum isso.
- Mas esse senhor não o está prendendo?
- É que eu sou corinthiano. Pura perseguição! O senhor não lê os jornais? Dá uma olhada nas páginas policiais e o senhor vai compreender.
- Desculpe, mas isso tem alguma coisa a ver com o vinho que eu, muito deselegantemente, não paguei ontem?
- Imagina senhor Descartes. Uma simples conta de dois mil e quinhentos reais? O que é isso para um professor de Ensino Médio? Nada! O senhor disse que no final eu lhe daria razão. Lembra-se?
- Mas é claro! Mas você é professor de quê?
- De Filosofia. Estou tentando resolver esse probleminha matematicamente, do mais simples ao mais complexo. Aprendi com o senhor!
- E qual é a parte mais simples?
- O dono aceitar dividir a conta no cartão de crédito em suaves prestações.
- E o que é um cartão de crédito? Acho que nunca ouvi dizer!
- É melhor nem conhecer! Foi um plástico que inventaram que tem o poder de um Katrina nas mãos de idiotas como eu!
- E a parte mais complexa do seu problema, qual é?
- Explicar para minha mulher porque eu não fui para casa até agora e porque e com quem eu bebi um vinho tão caro. Com certeza ela vai dizer que eu estava com uma mulher.
- As mulheres perguntam demais, não é? Sempre permanecem na dúvida sobre tudo! Uma única certeza não basta para elas! No meu caso bastou.
- Cogito ergo sum1, eu sei! Pois é Descartes, se elas perguntassem menos, não mentiríamos tanto!
- Então vamos resolver o problema mais simples agora. Pagarei a conta e tomaremos outro vinho. O que acha?
- Serei eternamente grato! Mas dessa vez, prefiro água. 
- E quanto à sua mulher?
- Bom......a parte mais complexa deixemos para depois! (Pensei: se minhas malas já não estiverem no meio da rua!).

1 – mais comumente traduzido por “Penso, logo existo!”, mas também por “Penso, logo sou!”.

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