terça-feira, 19 de julho de 2011

ENGANADO POR DESCARTES!

Há muitos que afirmam ser impossível fazer filosofia de boteco. De fato, é preciso lucidez e sobriedade para discutir questões filosóficas. A desrazão e a desmedida não podem sentar-se à mesa do Banquete filosófico. No boteco do meu blog, ao contrário, elas podem!

Era uma noite tranquila, bastante fria e eis que vejo entrar um gentil-homem, usava um capote preto com uma bela gola branca. Pelo gesto e pela fala, me pareceu um legítimo francês. Sentou-se muito tranquilamente e, degustando demoradamente um Chateau Fombrauge Saint Emilion Grand Cru 2005, parecia meditar. Resolvi então puxar conversa.

- Boa noite Senhor? Vejo que está sozinho?
- Pois é, acabei de chegar de uma longa viagem e não conheço esse lugar.
- É, Itapeva não faz parte dos grandes centros, mas um dia será. Está gostando, senhor....?
- Descartes, René Descartes.
(Fiquei pasmo na hora. Não poderia ser! Descartes morreu em 1650. Será que estou vendo espíritos? Para não o assustar, tentei manter a tranquilidade).
- E o senhor está gostando daqui?
- O clima não me é estranho. Afinal, fiquei tempo vivendo sozinho em uma cabana na Holanda. E quase morri de tanto frio.
(Pensei: na verdade lá contraiu uma pneumonia que o matou!).
- E as pessoas? Conversou com algumas?
- Meu caro, “bem viveu, quem bem se ocultou”. Entendeu?
- Perfeitamente, senhor Descartes. E é melhor assim, somos muito provincianos ainda!
- Você aceita um Chateau Fombrauge?
(Nessa hora gelei. Pensei: esse vinho deve ser uma fortuna. Se eu beber, vou ter que rachar a conta e meu cartão já passou do limite comigo).
- Na verdade, eu gosto mesmo é de cerveja. Vinho está para além das razões de meu bolso.
(Descartes riu educadamente)
- Não se deixe enganar pelo que vê meu rapaz. Os sentidos sempre nos enganam. Você costuma confiar neles?


- Sempre sou traído por eles. Às vezes confio mais em minha intuição. E nesse momento, minha intuição me diz que é melhor ficar na minha cervejinha.
- Deixa de bobagem! (Garçom, uma taça para o rapaz aqui!). No final, veremos quem está com a razão!
- O senhor sempre preocupado com a razão! (Pensei: ainda bem que ele não leu Nietzsche!)
- Alguém escreveu um livro em que me perguntava: por que sempre a verdade senhor Descartes? - Você o conhece?
- Por que não o erro?
- Ele finalizava com essa frase! É Nithe, não é?
- Não! É Nietzsche.
- Ahh..alemão! Nomes estranhos. Prefiro os latinos!
(Rindo, pensei: até Descartes gosta do Latino? Estamos perdidos então!).
- Qual o motivo do riso? Você já leu os latinos?
- Se o senhor soubesse quem é Latino hoje?
- O senhor disse que essa cidade é um pouco provinciana? Como assim?
- Aqui é preciso ter uma “moral provisória”! O senhor adotou uma, não se lembra?
- Verdade! Enquanto não encontramos uma verdade inquestionável, indubitável, a moral não se sustenta. Mas também não podemos fazer tudo o que queremos, correríamos riscos demais!

- Eu sei. Corro riscos o tempo todo. Sempre traio minha moral provisória!
(Ele riu e disse que precisava ir).
- Au revoir meu amigo. Se um dia o senhor Nietzsche estiver por aqui, me convide! Gostaria muito de conhecê-lo.
- Claro senhor Descartes. Terei o prazer de me sentar ao lado de dois gênios da Filosofia. (Pensei: outra enrascada!).
Após a despedida, me dei conta de que o gentil-homem foi embora e não pagou a conta. Pensei: os sentidos nos enganam, esse vinho nem deve ser tão caro! Descartes não seria tão deselegante! Será que ele era rico, não me lembro!).
- Garçom? A Conta!
- Santa Cruz Bendita!! Dois pau e meio! Filho da mãe! Os sentidos até podem nos enganar, meu bolso nunca!
- Algum problema senhor?
- Será que tenho direito a um telefonema? Preciso falar com meu advogado!

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