terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Discurso de formatura 3ºA SESI - 2021

 Boa noite a toda comunidade SESI aqui presente nessa noite tão especial.

É sempre uma honra representar todos os meus colegas professores e professoras como paraninfo de turma. E sempre dá um friozinho na barriga, não é Márcia? E aquela voz interior com a qual eu falo em silêncio ou na frente de todo mundo mesmo, sempre escreve em caixa alta nessa época do ano: Não vai dar meu filho!. Poucos segundos depois, ela mesma soletra bem baixinho no canto do ouvido: você está no SESI e esse terceiro vai te matar. Bendito superego! Respira e cria. Você é bom nisso! Pronto, sabe aquele traço narcísico bem pequenininho que esse professor tem? Então, vamos lá!

Entre deuses, filósofos e formandos!

Não gosto muito da ideia de ciclo que se encerra, porque o que é cíclico não tem exatamente um fim, ou pelo menos, sempre retorna em algum momento da vida. Como disse meu professor de psicanálise: a criança sempre irá perguntar se tem que ser à caneta ou pode ser a lápis. Pelo menos as de xizinho, né galera? Esse pequeno exemplo nos mostra o quanto certas experiências e aprendizados nos marcam profundamente e sempre estarão lá. Você não vai deixar a escola, nem as experiências que aqui viveu, tampouco as pessoas com quem dividiu risos, abraços e choros. Cada sucesso e fracasso, cada palavra terna ou mais dura, cada gesto de afeto ou cada golpe no coração, o primeiro dez, a primeira reprova, o primeiro bola fora, o primeiro não, a primeira paixão, o primeiro desgosto, o primeiro dia de aula, a primeira professora, a primeira aula de filosofia e sociologia. Tudo isso é o tecido que nos forma, que nos molda e que nos transforma. E é preciso olhar para todos esses momentos e experiências com ternura e olhar apurado, com sinceridade, mas também leveza, com o olhar da crítica, sem se esquecer de estender as mãos da gratidão. E voltar, voltar sempre que preciso, sempre que necessário. Porque se não voltamos, ele volta, como passado, como “roupa que não me serve mais”, mas que também não podemos mais vender, nem doar, nem se desfazer.  Melhor abrir o guarda roupa e deixar que ela se mostre. Voltar repetidas vezes e ir ao encontro dela, da sua roupa.

Voltemos então! E no começo eram os deuses, era a luz inebriante do Olimpo. Professor, mitologia é muito da hora. Quando teremos aula disso de novo? Mas o que os deuses teriam a nos dizer, pobres mortais? Que eles nos invejam, por isso nos alçam aos louros da vitória e ao drama da tragédia. Ohh, quantas vitórias e tragédias não viveu cada um de nós, mas especialmente cada um de vocês durante todos esses anos, estimados formandos e formandas.

Deixemos os deuses em sua eternidade. Como dizia Epicuro, são felizes e plenos e não se ocupam da vida alheia. Ahh, então, cuidado com a bolha, cuidado com o Insta heim! Eu sei: face já era professor!

E os filósofos? Valeria trazê-los de volta? Calma, não é para o vestibular, nem para o ENEM, nem PSS. Apenas algumas lembranças do passado que podem servir como roupa customizada no futuro.

Busque o equilíbrio e será feliz (o desenho da balança, lembram?). A virtude está no meio termo. Mas e é fácil Aristóteles? Não! Vez ou outra passe da conta, ou sequer saia do lugar. Ou, como disse um outro professor do meu curso: o segredo não é o equilíbrio, mas equilibrar-se!

Saia um pouco do mundo sensível, não viva só em função da matéria ou da alma concupiscente (lembram do desenho do hominho? Quase um vitruviano, né?). Viaje para outros planos, mundos inteligíveis, planetas não habitados. Leia, leia, leia. Mas volte, volte e grite dentro da caverna: saí daí ignorância! É fake neeeewssss pô!

Entenda que a felicidade está nas coisas mais simples, e se você não for capaz de ser feliz com pouco, jamais será com muito. Mas Epicuro, posso considerar um caixa de chocolate, uma bela picanha, coisa simples? Pode vai, tá meio salgado né? Só não exagera! E não se esqueça que amigos são melhores que o melhor churrasco. Se conseguir juntar as duas coisas, aí é muuuuita felicidade. (E que os veganos nos perdoem a blasfêmia).

E quando as coisas não estiverem em meu controle ou não dependerem de mim? O melhor é relaxar, tranquilizar o coração e não se desesperar. Um pouco de estoicismo não fará mal a ninguém! E, em certa situações, não levante grandes expectativas. Quem é corintiano, como eu, aprende isso desde muito cedo.

Aaa, mas eu também terei que fazer escolhas, tomar decisões. Sim, dia após dia. Algumas serão bem difíceis, tipo escolher um filme na Netflix. Eu já desisti umas duzentas vezes. A vida não é um catálogo da Netflix, mas desistir também poderá ser uma opção.

E quando tiver dúvidas? Que bom, né! Sem dúvida não é possível chegar a certeza nenhuma. Descartes estaria até hoje sentado no porto a pensar se o navio é grande ou pequeno. Ou se enganando com tudo que vê no Tik Tok. Use filtro, mas com moderação! Os sentidos enganam!

Mas e quando eu tiver certeza, certeza, certeza mesmo? Lembre-se com Hume que há sempre um 0,001% de probabilidade de estar errado. A bateria do celular pode acabar ou a natureza contrariar suas previsões. Aaahhh, e a pessoa que estava com o pren drive faltar exatamente no dia da apresentação. Eu disse: faz no online e compartilha meu pai amado! Isso você deve levar pra faculdade. Lá não desconta só 20% da nota não!

E quando eu não souber o que fazer ou não tiver certeza se é o certo a fazer? Lembre-se de Kant. Eu quero que todos façam o mesmo? Se fizessem comigo, seria bacana? Não precisa lembrar o nome dos imperativos, isso não importa mais. Importa que aprendamos a pensar e agir coletivamente. Não, também não precisa todo mundo gostar de sertanejo universitário. Aí o imperativo é hipotético mesmo! Nada de categórico!

E quando nada fizer sentido? Busque um! Quem disse que a vida já vem com uma bula de recomendações e efeitos colaterais? Nos tornamos pelas escolhas, como diz Simone de Beauvoir. Amor fati, como diz Nietzsche. Amar o que somos, amar a vida, amar esse momento, amar com todas as forças do corpo e do espírito. E partir para ser espíritos livres, capazes de pensar por si mesmos, esclarecidos, com desejo de um mundo mais justo e mais humano. Humanizar as relações. Deixar as coisas serem coisas. Tirar das coisas os sentimentos para os recolocarmos no lugar de onde jamais deveriam ter sido tirados: de dentro de nós mesmos. Sentimento é coisa de humano. Se formos capazes de nos revoltar e não nos calar diante da injustiça, do racismo, da intolerância e do preconceito, estaremos já sendo subversivos, revolucionários, porque há ainda em nós SENTIMENTO, porque o “pulso ainda pulsa” e somos capazes de ir, mas também de voltar.

É com um sentimento de terna gratidão e imensa felicidade que desejo saúde, luz e sabedoria! Corujas, estimados estudantes, muitas corujitas!

Ahhh, e pode fazer a lápis sim! E compre uma borracha também!

domingo, 19 de setembro de 2021

Freire, seu subversivo!

 Freire, seu subversivo!

Subversivo por princípio e método.

Subversivo por querer subverter a ordem.

Subversivo por subverter a lógica.

Subversivo porque analfabeto é fabricado. E tudo que é fabricado nos é útil.

Subversivo porque escola deveria ser um banco.

Subversivo porque professor deveria ser especialista em estatística e moeda corrente.

Subversivo porque caridade é o que nos salvará a alma.

Subversivo porque professor é o centro e sempre o será. Quer nos tirar a vaidade, seu subversivo? Quer matar Narciso mais uma vez? Vai pra Cuba!

Justiça é coisa de comunista, seu comunista subversivo!

Eles que lutem, seu subversivo! Já tenho meu carro do ano e meu apartamento com varanda gourmet. Daqui
avisto a estátua da liberdade.  

Nossa bandeira um dia será vermelha sim, mas só com listras.

Estrelas já temos, seu subversivo!

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Discurso de formatura 9ºA e B - SESI Itapeva 2020

 

Boa noite a cada pessoa aqui presente nesse dia tão especial. Uma formatura é um momento único, genuíno, e a de 2020 é praticamente uma Monalisa, jamais existirá outra igual, apenas releituras, como as que a professora Marcela trabalha com tanta dedicação e criatividade. Da Vinci te perdoa, tá Má! Nenhuma geração jamais imaginou, nem mesmo em seus devaneios distópicos mais distantes o que estamos vivendo hoje.  Geração Z já é história! Ok, boomers?

E por falar em gerações, como não lembrar delas no dia de hoje? É muito provável que temos as gerações mais conhecidas aqui representadas hoje: BB, X, Y, Z e Alfa (provavelmente jogando algo no celular e falando “sozinhos” nesse exato momento). Vejam que momento único: estudamos, discutimos e dialogamos tanto no EIXO sobre os conflitos e as dificuldades de se conviver geracionalmente tendo vivido em tempos e mundos tão diferentes e agora estamos aqui, no mesmo espaço, pela mesma razão. Por falar nisso, vamos a um aulão revisional então? Eixo não teve prova mesmo! Pode ser 9ºA e B?

Quem é da Geração Baby Boomer aqui presente presenciou um dos momentos históricos mais tenebrosos da humanidade: foi testemunha ocular (ou talvez depois de seu fim) dos campos de concentração e do horror nazista, viu erigirem-se regimes totalitários em diferentes partes do globo, que já sabiam ser esférico. Pelo menos a escola já os ensinava e as viagens espaciais vieram ratificar o que já afirmava Ptolomeu no séc. I da era cristã.  Pois é professora Márcia e professor Anderson, os matemáticos sempre souberam antes de todos, que inveja, que ódio. Se Darwin tivesse antevisto o terraplanismo, talvez excluísse os humanos da escala evolutiva, né não Mayara? Mas a geração Baby Boomer não foi testemunha só do horror que a professora Tânia ensina com tanta dedicação para que as futuras gerações não repitam tamanha barbárie (calma Tânia, aquela perguntinha se é de esquerda ou direita, também me fazem! Tmj).  Os BB também viram florescer o sonho de um mundo melhor, de uma grande revolução, viu estudantes e professores universitários tomarem as ruas de Paris no maio de 68 gritando por liberdade. Viu Luther King fazer o discurso mais profundo que já vi e ouvi professora Elaine, mas com legenda tá? Quem sabe um trabalho interdisciplinar com essa galera no médio me ajude a dispensá-las. “Y have a dream”. “Eu tenho um sonho”, repetia inúmeras vezes e cada uma delas irrepetível! Geração BB também viu surgir a força da mulher negra, Angela Davis, até hoje exemplo de resistência e luta contra o racismo. Viu o Woodstock, e Joe Cocker, a virtuose de Jimi Hendrix, a potência de Janis Joplin. Eram jovens quando viram lançar o russo Sputnik em 1957, o primeiro satélite em órbita. Eu sei, os americanos não aceitam até hoje. A celeuma será eterna, a Guerra Fria parece nunca ter fim professora Jesi, a geopolítica não dá trégua, não é? E agora tem a vacina com selo de aduana. E viram ainda as comidas se enlatarem professora Arline. Adeus fogão de lenha. Dá-lhe química e conservante! Uma lata de massa tomate e um saco de carvão vegetal vale bem um projeto mega disciplinar, né não professora?

Teria muito a dizer sobre os BBs, mas deixo para que vocês os ouçam. E ouçam mesmo, valerá muito a pena!

Agora é a vez da minha geração e, talvez, de alguns de seus pais ou familiares aqui presentes, a geração X. Essa viu o cinema invadir as cidades. O de Itapeva era na Rua Dr. Pinheiro, lembram? Se os BB viram nascer a TV e o cinema preto e branco, a X viu o mundo ficar colorido, caber dentro de uma fita K7 (rebobinadas a Bic), de VHSs que pagávamos multa ao não rebobinar para devolver na locadora. Locadora? Desconfio que muitos de vocês nem saibam o que é isso. Se tiver alguém da Alfa, tenho certeza que não. Montanhas de fitas para quem comprava o primeiro Videocassete. Eita, aquilo era sinal de riqueza! Telefone fixo era sinal de muita riqueza! Nem dava tempo de ver tudo, tamanha a euforia. Vimos Rambo, Robocop, Lagoa Azul (um escândalo na época, diga-se de passagem), vimos sem entender nada o Exterminador do Futuro. Mal sabíamos que alguns deles já estavam tão próximos! Com Chuck Noris, acreditamos piamente que o mal estava do lado de lá do Oceano. E tínhamos uma catarse quando ele explodia o eixo do mal a bordo de uma moto que soltava mísseis. Sim, os americanos sempre foram uma espécie de Mister M da telona. E numa ameaça alienígena então? Quem nos salvará? Chapolin. Nãããooo! Esse é Mexicano, bota pro lado de lá do muro. Quem nos salvará é Brad Pitt, é Tom Cruise, são as Panteras. Se é pra alguém nos salvar, tem que ser dentro dos padrões hollywoodianos, né minha filha? Minha geração viu a indústria cultural chegar forte como nenhuma outra, desenhos animados invadiram nossas manhãs, junto com toda sua publicidade. A arte virou diversão professora Marcela, e grana! Muita grana! Viu Michel Jackson fazer o primeiro clipe com roteiro, direção e créditos no final. Viu Madona escandalizar o papa! Viu o Muro de Berlim vir abaixo a marretada e o povo a cantar: não há mais esquerda e direita, acabou! Somos uma coisa só e globalizada Jesi. Chique não? Agora as olimpíadas não terão mais aquela disputa de bloco professor Fabrício. Afinal, o que músculos, velocidade, destreza física, inteligência motora tem a ver com política? Nada, não é professor? E vimos os Menudos, Backstreet Boys, Xuxa e as paquitas (sim, um dia eu fui apaixonado pela Xuxa, acreditem! Só a filosofia me libertou! Ufa!). Vimos Cindy Lauper lacrar e causar com sua voz e cabelos coloridos. E vimos um Papa extremamente carismático, conservador nos costumes, sofrer atentado e perdoar o atirador.  E vimos o celular tijolão ser ostentado como novo videocassete. Seu pai tem um? Noooossa! E fico por aqui porque minha geração viu o mundo se abrir e fechar e ainda estamos confusos e perdidos em meio a sonhos e pesadelos, alegrias e preconceitos que urgem serem desconstruídos, assim como nossa relação com a natureza.

E a geração Y?  Já nasceu com computadores mais potentes (um quadrado branco e um teclado gigante, bem sei) e com internet (discada, eu também sei disso! Sou uma espécie de narrador onisciente) Rede social era o Orkut e suas comunidades pra lá de estranhas e engraçadas, “Eu não sei escrever Nietzsche”, “Eu assistia Tele Tubes”. Cresceram em um mundo “mais estável”, mas também muito mais imediatista, mais pragmático, mais egoísta. Mas foram também a primeira geração e se preocupar e se envolver de forma mais intensa com o meio ambiente e fortes valores morais. Minha geração matava passarinho ou os engaiolava. Os Y abriram as grades. Minha geração tinha o sonho de conquistar um emprego estável (trabalhar em um banco, na Maringá, passar em concurso) para ali permanecer até aposentar (palavra estranha hoje, não é mesmo?). Os Y preferem fazer o que gostam, o que dá prazer muito mais do que “o quanto ganharei e em quanto tempo”.  A revolução feminina chegou aqui pra ficar, bem como projetos coletivos que deem mais sentido ao existir como humanos que vivem em aldeia urbana. E também a inclusão, que não dará um passo atrás depois dessa geração, não é professora Rosilda?

E os Ys gestaram os “Zs” que hoje se formam. E eu não direi quase nada sobre vocês. Ainda me sinto meio estranho no ninho. Vocês me assustam, me fazem rir, me fazem chorar (o dia da escolha como paraninfo que o diga, não é 9ºB? Mas vocês me pagam ainda!). Quando numa aula sobre distopia, ouço uma aluna dizer que já tinha lido “Admirável mundo novo” de Aldoux Huxley e outra, partes de “1984”, eu gelei! Eu fui ler Huxley na faculdade! George Orwel nas férias do ano passado! Eu fico imaginando o que a Professora Mariane vai trabalhar em literatura com essa galera? Alguma distopia galáctica? Heim Mariane? As professoras Silvana e Gisele têm os muitos dedos aí, tenho certeza! Valdir, tá preparado pra um projeto inter, multi e transdisciplinar? Vamos ter que botar um foguete em órbita meu filho!  Anderson e Beatriz: preparem robôs para invadir Marte!

Uma geração que tem na capa de abertura Malala e Greta Thunberg!

Olha o tamanho da bronca! Olha o tamanho da esperança!

Imensa gratidão e sejam bem vindos e bem vindas ao médio!

E que a Fer, a Isa e a Vã, toda equipe SESI 399, a Caverna dos dragões sem o mestre dos magos, os seres de luz e sabedoria de todo o cosmos estejam do nosso lado mais uma vez! Vamos precisar, viu? Como nunca!

Gratidão eterna e um beijo no coração de cada formando e formanda!

E a geração Alfa professor? Esqueceu? Não, mas agora devem estar jogando Minecraft ou criando algum canal no Youtube. Depois vocês mandam aquele grande abraço!

 

 

 

 

 

 

Discurso de formatura 3ºA - SESI Itapeva 2020



 Hoje é dia de gratidão!

Gratidão imensa a cada ser humano aqui presente, a cada animalzinho de estimação que ofereceu companhia e carinho para tantas pessoas nesse 2020, a cada animal, planta e rio que resistiu e resiste a todas as tentativas de aniquilação. Gratidão a todos os heróis invisíveis desse país, especialmente os profissionais da saúde.

Gratidão imensa ao 3º ano por terem me escolhido paraninfo para representar toda a equipe de professores e professoras de nossa escola, de todos os ciclos pelos quais passaram, de todas os espaços escolares que já frequentaram. Esse momento é a consolidação de um longo percurso, de uma rede enorme de pessoas que passaram pela vida escolar de cada um e cada uma: merendeiras e merendeiros, jardineiros e jardineiras, seguranças e recepcionistas, agentes de limpeza, funcionários e funcionárias da administração e manutenção, agentes de apoio escolar, analistas, estagiários e estagiárias, bibliotecários e bibliotecárias, coordenadores e coordenadoras pedagógicas, diretores e diretoras, professores e professores, colegas de sala e familiares. Pensem em quantas pessoas foram importantes para esse momento de concretizar? Evidente que nós, do SESI, somos os prediletos, não é mesmo? Quem aqui está desde pequeno ou pequena, não tem outra escolha.

Gratidão imensa por estarmos vivos, com saúde e o coração repleto de alegria para celebrarmos o dia de hoje. O dia de hoje precisa e merece ser celebrado, mesmo com todas as angústias que ainda nos aperta o coração e a alma.  

Gratidão imensa por todos os desafios que esse ano nos colocou no caminho. E eles começaram quando vocês ainda tentavam nos convencer a comprar a camiseta da sala. Lembram? “Gente, que camiseta é essa? Num tem condição não gente! Caro demais! Sé doido!”. “E tem o blusão se quiser professor”, gritou alguém. Quê? Vai meu pagamento inteiro nesse trem doida!”. Risos, risos, passos apressados para convencer a mim e aos demais colegas. E tudo que parecia tão grande, tão imprescindível, ficou pequeno, vazio, sem sentido. Mas como disse a vocês na última aula: a festa foi adiada, não cancelada. E ela será muito maior, mais plena e vibrante. Lembrem-se do que dizia Epicuro. Há sofrimentos e dores que, se suportados com sabedoria, podem nos proporcionar prazeres e felicidades muito maiores do que a própria dor sentida. A privação pode nos ensinar a valorizar o que antes nos era despercebido: os olhares, os gestos, o afago, o riso, a lágrima, o tom da voz, o cheiro do corpo, o toque, o sussurro, o grunhido, a tes, a amizade, essa o bem mais duradouro e fértil segundo esses mesmos filósofos. Oxalá tudo isso nos torne maiores e mais humanos, como vocês alunos e alunas do 3º ano se tornaram ao longo de todos esses anos. Foi no 7º ano, projeto de Empreendedorismo, que os conheci pela primeira vez. Eu sequer fazia ideia do tamanho da encrenca que me aguardava. Meus tímpanos ainda vibram com tantos entusiasmos, discussões, reclamações, e quantas reclamações! Competição acirrada, quase impossível formar uma equipe sem alguém chegar pertinho e falar baixinho: “Não coloca essas duas pessoas no mesmo grupo professor, vai dá morte!”. Lembram? E chegou a Feira de livros (o SESI tem essa coisa de produto final a muito tempo, não é Fer, Isa e Vanessa?). No final, fizemos uma feira maravilhosa, arrecadamos centenas de livros, uma tenda colorida e vibrante. Ali eu entendi o potencial de vocês, especialmente das alunas e alunos que ficaram. Muitos foram embora e a turma encolheu. Rostos demarcavam o medo, uma sensação estranha de vazio e ao mesmo tempo alegria pelos que ali fincaram pé. “Não vou embora, meu lugar é aqui” era a mensagem. Mas e agora? Meu Deus? Essa turma não se forma no médio meu pai! Lembram amigos e amigas? De repente, vem um, mais uma na outra semana, mais duas na seguinte. Felicidade contida. Estávamos esperançosos, mas tínhamos que fazer o centrão dialogar com a extrema-direita e extrema-esquerda. Sim, escola é lugar de política. Lembram da “arquitetura” da sala? Na psicanálise isso tem nome: mecanismos de defesa. Pasmem, eles nos protegem, mas também nos ocultam. E é preciso tempo, paciência, cuidado e afeto para que os muros sejam colocados abaixo. Não é no embate, na marra, na marreta. É na escuta, na observação atenta, na aproximação vagarosa, silenciosa. “Então agora somos uma coisa só professor? Não há mais nenhuma barreira?” Vocês sabem a resposta. Mas sabem também que as mais importantes foram ao chão: a vaidade, o orgulho e a indiferença. Nasceu o cuidado, o respeito e a partilha. Vocês já estavam se preparando para o que enfrentariam nesse 2020 sem sequer imaginar. Vocês foram enormes, gigantes. Confesso que não sei se teria forças para ser tão resiliente se, na idade de vocês, tivesse que passar por tudo o que passaram. Nietzsche nunca fez tanto sentido pra mim como ao olhar para vocês nesse momento. Ele chamava tudo isso de autossuperação, de quem é capaz de fazer das pedras fortaleza, das dores o vigor do espírito. “O que não me destrói, me fortalece!”. Viver a vida como obra de arte, mesmo em meio ao caos e o ocaso. No caso de sua filosofia, falava num tom bastante solitário. Vocês demonstraram que é possível construir grandes obras de arte a muitas mãos. Muitíssimo grato por terem nos ensinado que é possível, principalmente hoje, quando vemos tantos exemplos que querem nos convencer do contrário, de que o que vale é o egoísmo mais mesquinho, a ignorância mais abjeta, o ódio mais mortal.

É um ano tão desafiador, que até um discurso de formatura, que antes parecia fluir tão naturalmente, repleto de poesia e divagações filosóficas, hoje deu lugar ao pulsar do coração, a uma alegria que não sei de onde vem diante de tanta dor. Quiçá as Moiras nos quisessem fazer desistir e abandonar tudo, para que Cloto finalmente pudesse cortar o fio. Mas não vamos, assim como vocês formandos e formandas não desistiram. Desejamos o melhor para cada um e cada uma! Que o amor, o cuidado e a sabedoria que nos ensinaram nos ajude a vencer o ódio, o egoísmo e a ignorância.

E lembrem-se do que eu disse: se um dia, já mais velhinhos e velhinhas, alguém puxar assunto de formatura, deixem falar. Apenas no final da conversa: me formei em 2020. O resto você entenderá! Vocês são e serão a história viva!

Que a vida sorria para vocês, como fizeram para nós, mesmo que remotamente e com a câmera desligada. Valeu mesmo!

Um beijo no coração e gratidão imensa!

Prof. Júlio Garcia

terça-feira, 7 de abril de 2020

Sêneca: vacina para vírus da alma (Parte II)

“Quem quer que tenha o firme propósito de se tornar útil aos cidadãos e, em geral, a todos os mortais, ao mesmo tempo em que trabalha e produz, deve administrar, de acordo com suas condições, tanto as coisas comuns quanto as particulares.” Da tranquilidade da alma, p. 44

A imagem que sempre tive dos estoicos foi de, se não aversão, pelo menos distanciamento da vida pública e da política. No período helenístico em que essa escola filosófica se desenvolveu, a vida política era regida por modelos autoritários ou imperiais, não havendo mais espaço para decisões coletivas e consensuais que permitiam a participação dos considerados cidadãos, como foi o caso da democracia grega clássica. A isonomia[1] e a isegoria[2] estavam suspensas, assim permanecendo por quase dois mil anos, somente recuperadas a partir das teorias dos filósofos jusnaturalistas e das revoluções dos séculos XVIII e XIX, especialmente a francesa.
Mas a obra de Sêneca parece demonstrar claramente que, mesmo em condições adversas, com os limites da vida pública mais estreitos e sendo obrigados a uma vida mais reclusa e  retirada, ainda assim seria possível algum tipo de ação, pois se pudéssemos prescindir de toda a comunicação com os demais humanos ou a eles renunciar completamente, permanecendo isolados em nós mesmos, viveríamos “uma solidão vazia de ação”. Na pior das hipóteses em que fossemos obrigados a renunciar, por imposição externa, a toda e qualquer ação visando a coletividade e ao bem comum, mesmo assim poderíamos viver a virtude e essa, mesmo que obscura e retirada, emitirá seus sinais e pessoas a ela acorrerão, podendo dela se nutrir e a outros propagar seu presságio.
O momento presente, de pandemia e isolamento, nos oferece uma grande ocasião para o exercício das virtudes[3]. Que cada um de nós encontre os meios próprios para isso, seja na ajuda silenciosa aos que mais necessitam, a fala amável e consoladora nos infortúnios mais desesperadores, o companheirismo afável para a distância saudável. Se estamos condenados, temporariamente, à solidão necessária e não podemos cumprir nossos deveres como cidadãos na vida pública e no trabalho, que os cumpramos como seres humanos.
Nos tornamos cosmopolitas como queria Sêneca. Nossos deveres não se limitam mais a um território, a uma bandeira e um hino, um partido, um líder, uma classe social, um gênero, uma religião ou uma família. Foi necessário o caos para nos lançarmos para além de todas as fronteiras, bandeiras e hinos, povos e etnias, deuses e espíritos, cores e matizes. Voltamos a ser um com o Cosmos, a contemplar a beleza de nossa pequenez na imensidão do universo, na natureza e tudo o que nela habita e que agora, por um lapso do tempo, pôde voltar ao seu ciclo natural e se recriar. Nossos gestos de virtude devem se estender aos humanos e para além deles. Para nós, “adultos”, pelo menos por hora. Para as novas gerações, quiçá uma nova humanidade e um novo planeta!



[1] Em grego significa o reconhecimento de igualdade como cidadão; hoje, no direito, é entendida, de maneira bastante simplificada, como igualdade perante a lei.
[2] Em grego significa igual direito à palavra, ao discurso e ao voto numa assembleia de cidadãos.
[3] Uso aqui o temo no plural para me referir ao quadro de virtudes presentes na obra de Aristóteles, mais especificamente na Ética a Nicômaco, como a temperança, coragem, liberalidade, gentileza, respeito próprio, prudência (a mais elevada), entre outras.

Bibliografia:
ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco. Coleção os Pensadores. São Paulo, Editora Abril: 2004.
EPICURO, Da tranquilidade da alma; tradução de Lúcia Sá Rabello e Ellen Itanajara Neves Vranas - Porto Alegre, RS: L&PM, 2013.
DICIONÁRIO PRIBERAM, disponível em https://dicionario.priberam.org/isegoria acesso in 07/04/2020.