quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Miguelito: o Emílio de Rousseau

Miguelito sobrevoava um lindo bosque nos arredores de Paris quando pousou aos pés de uma árvore frondosa. Cansado, adormeceu! Sem que percebesse, ao seu lado deita-se um homem e também adormece. Miguelito acorda com o ronco do homem ao seu lado. Seu pequeno ouvido zunia como buzina.
- Jesus amado, que estrondo! A mulher desse fulano deve ter se suicidado! Vá “roncá” em São Miguel rapaz!
(Miguelito se aproxima e bate suas patinhas no rosto do pequeno homem)
- Ei, ei?
- Oi? Onde? O quê?
- Aqui meu amigo, embaixo.
- Nossa, que sonho estranho. Parecia que um inseto falava comigo. Essa vida em sociedade nos enlouquece mesmo!
- Inseto não senhor! Um besouro sapiens. E o último. Portanto, mais respeito!
- Não pode ser. E você fala? Nem sei o que pensar.... senhor?
- Miguelito.  Bom, segundo Aristóteles porque falo sou um ser político e blá blá blá. blá blá blá..
- Formidável, genuíno. E me diz uma coisa: você já viveu no estado de natureza?
- Já sei. Thomas Hobbes? O senhor é Hobbes?
- Não, senhor Miguelito. O senhor não está na Inglaterra, está na França. Sou Rousseau.
- Bom, que seja. Vocês inventaram essa coisa de estado de natureza, não provaram nada, e de uma hipótese querem transformá-la em prova do dia pra noite.
- Mas você pode ser minha prova. Por sinal, você poderia ser meu Emílio. O que acha?
- Sua cobaia?
- Cobaia? Como assim?
- Seu experimento vai!
- É, mais ou menos isso.
- E o que eu ganho com isso?
- Você viverá em um castelo no campo, lindo, afastado de tudo e de todos.
- Sabe que não é uma má ideia seu Rousseau. Só levei bomba até agora. Sócrates e Platão quase me envenenaram, em Tróia virei um guerreiro grego e quase morri. Alexandre (O Grande) me sacaneou legal. Mandou-me para Aristóteles, que por sua vez me trancou numa caixa. Até uma mulher me traiu.
- Quem Miguelito? Você estava apaixonado por ela?
- Não. A dona Penélope, esposa de Ulisses. Fiquei em Ítaca, trancado num quarto tecendo uma manta, uma colcha, sei lá.
- Miguelito, você é a história viva! E sua história prova que a vida em sociedade corrompeu os homens e os costumes desde os tempos mais remotos.
- Vamos ao que interessa. E pra ser seu Emílio, como vou ocupar meus dias? Poderei ler meus livros? Jogar um carteado, beberiar alguma coisa vez ou outra?
- Não, no começo não. Você irá desenvolver sua sensibilidade primeiro.
- Hum? Como assim?
- Não vou educá-lo como fazem os franceses, que tiram a robustez e a força do corpo.
- Melhorou a conversa.
- Você jogará péla, andará a cavalo, nadará nos rios, subirá em árvores, comerá os frutos do próprio pomar. Terá uma vida mergulhada na natureza e voltará a ser feliz Miguelito. O que acha?
- Sei não seu Rousseau. Não acredito mais nessa coisa de felicidade. Além do mais, me custa acreditar nos homens. Eles sempre agem em benefício próprio, mesmo quando a promessa é para fazer o bem aos outros.
- Ahhh...Voltaire e o círculo dos iluministas iriam “adorar” ouvir isso. O povo corre para suas cadeias imaginando correr para sua liberdade!
- Bom seu Rousseau, já está escurecendo. Vou ceder à tentação do corpo mais uma vez, apesar de minha intuição me dizer que seria melhor dar meia volta e sumir daqui.
- Você não se arrependerá meu caro!
- Já ouvi isso antes. Inúmeras vezes!
(Miguelito foi levado então para uma casa de campo em Ermenonville onde Rousseau estava hospedado. Dias de intensa alegria se passaram. Miguelito aprendera andar a cavalo, nadar, subir em árvores, escalar montanhas, ordenhar a vaca, plantar, caçar. Alimentava-se de frutas, legumes, peixes, hortaliças. Seu corpo estava forte, sua negritude resplandecia como a carruagem de Apolo. Mas bateu a saudade! Saudade de tudo o que lembrava civilização. Pela manhã Rousseau percebe a inquietude de seu Emílio).
- Meu Emílio, vejo que estás inquieto. O que se passa?
- Não leve a mal seu Rousseau, mas estou com saudade de algumas coisas.
- Vejamos se podemos ceder. Diga o que você quer?
- Ah...um X-tudo com muita maionese e mostarda.
- Muito artificial Miguelito. Nem pensar!
- Então...uma pizza quatro queijos. Hein?
- Fora de cogitação. Outra coisa!
- Uma cervejinha bem gelada com uma porção de amendoim salgado.
- De jeito nenhum. Meu Emílio é uma criança. Eu poderia ser preso!
- Mas eu não sou criança. O seu Emílio é! Tudo bem. Então que tal uma balada hoje à noite, umas tchutchucas! Heins?
- Tchutchucas?
- Donzelas seu Rousseau, rabo de saia, entendeu?
- Veja bem meu caro. Se você quer tanto ir, vou escrever uma carta a um grande amigo meu. Pense numa pessoa que me quer bem. Em sua casa, você será muito bem recebido e ele gosta dessas coisas da sociedade.
- Que gentileza seu Rousseau. E como se chama esse seu grande amigo?
- François Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire.
- Belê seu Rousseau. Vou preparar minha mala então.
- Vai lá meu Emílio. Você será muito bem recepcionado.
(Miguelito saiu todo feliz levando consigo a carta de recomendações de Rousseau. Só não sabia ele que Voltaire era "inimigo" intelectual confesso de Rousseau).
Voltaire e Rousseau: dois grandes nomes do Iluminismo.

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